Parecia algo bobo, mas uma coisa que me deixava ainda mais mal era saber que Gabriel não fora velado da forma como era o desejo dele. Eu me perguntava se os pais de Gabriel teriam sabido que o filho queria ser cremado e ter as cinzas jogadas ao mar, sem contar na música “Wander my friends” que ele sempre quis que tivesse tocado no seu velório. Ao contrário, o corpo de Gabriel havia sido enterrado em um cemitério e no lugar da música, o som das palavras de um padre.
Eu me sentia um pouco responsável. Eu devia ter lutado para ver realizado esse último desejo dele, mas fiquei inerte, assisti de forma passiva a família fazer o velório conforme a própria vontade e não conforme a vontade do falecido. De alguma forma, eu me sentia como se eu tivesse falhado com Gabriel. Depois de tantos erros, eu ainda tinha sido capaz de cometer mais um.
Não sentia mais vontade de me alimentar, de tomar banho... de fazer nada. Eu passava o dia na cama, completamente sem entusiasmo.
Foi dois dias depois do enterro, que minha mãe entrou de forma enlouquecida no meu quarto.
- Gustavo, levanta dessa cama e vem cá vê. – ela falou.
Eu simplesmente a ignorei. Eu não queria ver nada, queria apenas ficar na cama.
Minha mãe que nos outros dias andara preocupada com a minha abstinência em relação a comida; parecia agora ter esquecido do meu estado depressivo, me deixando de certa forma até um pouco chateado. Oras, eu ali mal, e ela ali exaltada.
- O que foi mãe? – perguntei de cara amarrada.
- Roma, meu filho. Roma!
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