- Então. – ele começou. – Essa música eu decorei para que eu recitasse para você, caso algum dia a gente terminasse o nosso namoro. Nunca quis que isso acontecesse, mas se acontecesse, eu teria esse texto para recitar.
Eu dei uma pequena risada, isso era muita coisa de Gabriel mesmo.
- Mas a gente está terminando? – eu perguntei.
- Ah, de certa forma, sim. – ele respondeu. – Eu vou morrer né.
- Ah não, não gosto de ouvir você falando desse jeito. – eu dizia como se tudo fosse ficar bem, mas lá no fundo eu sabia que nada ficaria bem, mas eu não podia admitir isso, admitir isso só tornaria as coisas mais horríveis ainda, eu tinha que nutrir esperanças. Se eu não nutrisse esperanças, quem é que nutriria? – Você não vai morrer. Já te falei isso.
- Tá, mas de qualquer jeito eu quero recitar a música para você. Queria que você prestasse bastante atenção para nunca esquecer o que vou dizer. Posso?
Eu fiz um sinal de sim com a cabeça. Fiquei olhando para Gabriel e ele ficou olhando para mim. Então ele começou a falar.
- Estrelas vão fugindo entre os faróis e o mar, neste azul... que azul?
/O nosso amor sumindo, entre partir, ficar, entre o norte e o sul.
/Cruzando sobre os raios, antenas de tv, porque você me olha, se você não me vê?
/Sobre os oceanos, em doces guerras frias, não deixe anoitecer, não deixe escurecer,
os nossos dias. . .
Os meus olhos brilharam e o meu coração encolheu, ficando do tamanho de um grão de arroz.
- Eu não vou deixar nunca escurecer os nossos dias. – eu falei.
Nesse momento, a porta do quarto se abriu e quem entrou foi a mãe de Gabriel.
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