Entrei no quarto em passos lentos. Gabriel virou o rosto na minha direção. Eu desviei o meu olhar para o chão, mas continuei andando, me aproximando cada vez mais dele.
- Oi. – disse Gabriel.
A voz dele saiu rouca e fraca, ele fazia força para falar.
- Oi. – eu respondi, erguendo novamente a minha cabeça.
Era difícil não se chocar com a imagem. Algum pouco tempo atrás Gabriel era um garoto saudável, bonito, cheio de vida e alegre; agora ele estava deitado na cama, completamente raquítico e branquelo, com uma expressão de resignação no rosto, seu corpo inteiro estava com hematomas roxos, machucados por toda a extensão da pele, seus olhos estavam vermelhos e pareciam sensíveis a iluminação, um pequeno filete de sangue escorria de seu nariz.
Assentei-me na cadeira do lado da cama.
Gabriel transparecia-se sereno. Era nítido que ele estava sob efeito de vários calmantes fortes.
Ele começou a conversar comigo sobre o pão gigante que tinha aparecido no meio da rua. Perguntou o que eu achava que era, eu disse que não fazia idéia. Ele me respondeu que achava que era algum sinal de Jesus.
Essa resposta teria sido hilária se não fosse a delicada situação, porque Gabriel sempre fora ateu convicto. E agora ele parecia numa busca desenfreada de achar algum consolo para o final da vida.
De repente ele ficou sério e olhou no fundo dos meus. Ele abriu a boca e sua voz saiu séria.
- Gu, eu preciso só saber uma coisa.
O meu estomago embrulhava ao ver o estado deplorável que estava o rosto de Gabriel, todo manchado e com protuberâncias horríveis. Mas sustentei o olhar nele, era o mínimo que ele merecia.
- Qualquer coisa. – eu respondi. – Pode perguntar.
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